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César e o Mar(ionete)
Nessa história encantadora inspirada em O Pequeno Príncipe, um menino descobre um imenso fundo do mar atrás da porta do seu quarto de hospital.
César tinha onze anos quando descobriu que estava doente. Foi para o hospital fazer um exame de rotina, e de lá não saiu mais. Hoje faz um ano que está internado.
Fora dos horários de visita, sua única companhia é o seu marionete de madeira. Quando brincou com ele pela primeira vez, já embolou todos os fios, mas ainda assim continuava sendo seu boneco favorito.
Era também seu único amigo, pois desde que caíra doente não podia mais sair brincar com seus colegas nem ir à escola. No começo eles sempre vinham visitá-lo, mas com o tempo as visitas ficaram cada vez mais escassas.
Hoje, o jornal anunciou uma grande tempestade para a cidade. Às seis da tarde, já começou a trovejar. A chuva começou leve, mas foi ficando mais e mais forte.
À noite, depois de tomar seu remédio, César adormeceu (seu remédio sempre lhe deixava um pouco sonolento... e fraco também). De repente, foi acordado por um barulho estranho... um barulho de... bolhas?
Ele se levantou da cama, puxando o suporte do soro, e foi até a porta escutar melhor. Sim! Eram bolhas. Foi abrindo a porta vagarosamente até que um monte de água caiu sobre ele e inundou o seu quarto. Do outro lado da porta havia… seria possível? Um fundo do mar!
César nunca tinha mergulhado, mas certamente reconhecia o fundo do mar. Ali havia algas, peixes, estrelas, anêmonas, e, claro, água! Ele virou para pegar o seu boneco, mas este se levantou de um pulo, desvencilhou-se dele e mergulhou pela porta. César pôde ver seus bracinhos se abrindo, e o boneco correu pela areia. Respirou fundo, tomou coragem, pegou o suporte do soro e mergulhou.
Ainda podia ouvir os passinhos do seu boneco, mas não podia mais vê-lo. O suporte do soro tinha desaparecido, e ele se sentiu de repente incrivelmente livre. Nem parou pra pensar em como conseguia respirar embaixo d'água. Começou a andar seguindo o barulho dos passos, e a água foi ficando mais escura, até que não conseguia enxergar mais nada.
— Boa noite! — ele escutou, porém não via nada. Enxergou uma luz, ouviu uma movimentação, mas continuava a não enxergar ninguém.
— Quem está aí? — perguntou.
E foi então que ele viu a arraia. Ela era excepcionalmente grande, ondulava constantemente e possuía uma cartola no topo de sua cabeça. Parecia muito com um losango, porém com cauda.
— Olha! Uma pipa! — disse ele.
Nunca pôde brincar com uma e por isso correu empolgado.
— Não encoste na minha cauda! — disse a arraia — não está vendo que eu tenho um ferrão? Posso muito bem utilizá-lo.
— O que você é?
— Eu sou um mágico! Não é óbvio?
— Ah… talvez isso explique a cartola. Já sei! Já ouvi falar de você. É aquele animal que solta tinta e então foge, não é mesmo?
— Não, esse é o polvo. Quantos braços você acha que eu tenho?
— Enfim, eu estou procurando meu amigo. É um marionete. Por acaso você não o viu?
— Eu vi um animalzinho correndo por cima de mim, isso sim. Mas já vou avisando. Se ele não possui a minha incrível capacidade de camuflagem a essa hora já deve ter sido devorado por um tubarão.
— Mas isso é terrível!
— Mas se quiser perder seu tempo procurando, ele seguiu nessa direção — apontou com a cauda.
— Obrigado! — e saiu correndo o mais rápido possível.
O mar à sua volta foi começando a clarear, enquanto César seguia a direção indicada pela arraia. E então lá no alto, ele viu uma luz. Alguém sorrindo.
— O que você faz aí em cima?
— Eu sou um peixe-anjo, não preciso me arrastar pelo fundo do mar como vocês.
— Ah, é verdade, você tem asinhas. Eu devia ter reparado.
— Não, não. Eu não sou um anjo-peixe. Eu sou um peixe-anjo, é diferente. Isso são apenas barbatanas.
— Ah... mas onde estão os outros?
— Que outros?
— Os outros peixes! Peixes andam em cardumes, não?
— Ora, ora. Apenas os peixes feios. Peixes-ANJOS não querem ter sua beleza ofuscada por outros.
— Não é um pouco solitário? Eu fico sozinho a maior parte do tempo, mas não é porque eu quero.
— É... talvez... Ora menino, não me faça perder meu tempo. Diga logo o que quer.
— Eu procuro meu amigo, um marionete. Ele é vermelho e tem olhinhos pequenos. Por acaso você não o viu?
— Ah, o caranguejo? Ele foi por ali. Agora desapareça.
— Mas ele não é um caranguejo...
— Desapareça!
— Às vezes um sorriso esconde muita coisa... — murmurou.
Indo pelo caminho indicado, César começou a escutar uma vozinha lhe chamando:
— César! César!
Até que avistou um pequeno caranguejo. Certamente um pouco estranho; parecia que era… de madeira!
— Você é o meu marionete!
— Mas é claro que sim! Com alguns bracinhos a mais talvez... Fiquei desse jeito assim que passei por aquela porta.
— O que você veio fazer aqui? Por que você fugiu de mim?
— A verdade é que eu ouvi falar de uma pessoa que pode te curar!
— Mesmo? — desde que entrara ali, César nem mesmo se lembrava de que estava doente.
— É uma feiticeira — disse o caranguejo — que diz conceder um desejo a quem a tirar do fundo do mar. Dizem que entrou aqui atrás de um tesouro e nunca mais conseguiu sair.
— E você sabe onde ela está?
— Sim, já a encontrei. Venha comigo!
O caranguejo guiou então César até a sua descoberta.
— Que animal estranho! Parece um polvo de ponta-cabeça.
— Mas que mania com polvos! Ela é uma anêmona, não a irrite tão cedo.
— Dona Anênona..
— ANÊMONA!
— Perdão, dona Anêmona. Acho que nós podemos tirá-la daqui.
— Mesmo?
— Sim — disse o caranguejo.
— E o que vocês ganhariam com isso?
— Eu quero ficar curado! — disse César — Ficamos sabendo que a senhora é uma grande feiticeira.
— Mas é claro! Isso é muito simples para mim. Mas só realizarei o seu desejo depois que me tirarem daqui.
Então César seguiu com o caranguejo e a anêmona até encontrarem o peixe-anjo, onde dobraram até avistar a arraia, perto de onde encontraram a porta.
— É aqui!
Ao cruzar a porta, César passou mal e perdeu os sentidos. Uma médica foi chamada às pressas, e constatou que ele havia se afogado, mas de onde tinha vindo aquela água? Por sorte, conseguiram socorrê-lo a tempo.
No dia seguinte, César teve alta do hospital. Ninguém sabia direito como ele tinha se curado. Junto ao seu marionete, César encontrou uma bonequinha de pano de cabelos desgrenhados. Talvez ele nunca descubra que essa feiticeira na verdade nunca teve poder nenhum.
Ao sair do quarto, César encontrou junto à porta, uma pipa, presa pela rabiola, incrivelmente parecida com uma arraia.
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